O cenário macroeconômico doméstico está evoluindo de forma relativamente favorável. Com a queda da inflação e projeções do mercado dentro do intervalo da meta para o IPCA, a Selic foi cortada em 0,25 ponto percentual na segunda reunião do Copom do ano. No atual cenário, a taxa de juros básica da economia chegaria a 12,25% ao ano em dezembro de 2026 (Focus de 13/03).
Essa trajetória esperada da Selic contribuirá para reduzir o custo de crédito ao longo de 2026 que, junto às taxas previstas de desemprego e ao aumento da renda disponível, beneficiará o mercado imobiliário de compra e venda. De modo mais detalhado, um ciclo de cortes da Selic tende a melhorar gradualmente as condições de crédito. Para o mercado imobiliário, juros mais baixos costumam favorecer a demanda por financiamento e estimular decisões de aquisição de imóveis. Vale frisar o caráter gradual da transmissão da política monetária para o crédito imobiliário, já que fatores como spreads bancários, condições de funding do sistema financeiro e políticas públicas de crédito habitacional também influenciam o custo final para o consumidor. Outros elementos domésticos contribuem para um ambiente potencialmente mais favorável ao setor. A manutenção de níveis relativamente baixos de desemprego, combinada com o aumento da renda disponível, incluindo possíveis efeitos das mudanças no Imposto de Renda, tende a sustentar a capacidade de consumo das famílias, o que pode também beneficiar o mercado de compra e venda de imóveis.
No contexto externo, projeta-se um dólar mais fraco, com cotações entre US$ 5,24 e US$ 5,40. A apreciação do real ajuda a conter a inflação ao baratear importações de bens e serviços finais e insumos. Ademais, com a inflação global também em queda, os bancos centrais mundo afora podem cortar seus juros, aumentando (ou mantendo) o diferencial de juros entre países Estados Unidos e Brasil, por exemplo, e atraindo (ou não reduzindo) fluxo de capitais a países emergentes.
O surgimento do conflito entre Israel, Estados Unidos e Irã, contudo, ameaça esse cenário ao elevar a incerteza e, potencialmente, a inflação global. Para além dos prejuízos humanitários, duas consequências do conflito são o bloqueio do Estreito de Ormuz e ataques do Irã a países vizinhos, como a Arábia Saudita, Iraque e Kuwait. Tais consequências podem reduzir a oferta mundial de petróleo e gás natural, o que elevaria o preço da energia e a inflação. A falta de previsibilidade da duração deste episódio já se manifestou no preço do barril do Brent, que ultrapassou os US$ 100 em março, conforme noticiado na imprensa.
Se a guerra perdurar por tempo excessivo, corre-se o risco de que as previsões citadas anteriormente não se concretizem, o que implicaria em um ritmo de cortes da Selic mais lento do que o esperado. Além do crédito imobiliário caro por mais tempo, o encarecimento do petróleo (e de seus derivados) afeta diretamente os custos de insumos da construção civil, como cimento e aço. Há, inclusive, impactos nos custos logísticos. Adicionalmente, a incerteza tende a enfraquecer o real, pois o dólar ainda é visto como porto seguro em momentos de alta instabilidade econômica.
Por fim, conflitos geopolíticos também influenciam a economia por meio de seus efeitos sobre confiança, investimento e volatilidade financeira. Esses canais, embora indiretos, podem impactar decisões de compra de imóveis e estratégias de lançamento por parte de incorporadoras. Assim, ainda que o cenário base para o mercado imobiliário permaneça associado à gradual melhora das condições macroeconômicas domésticas, a evolução do ambiente internacional continuará sendo um fator importante a ser acompanhado nos próximos meses.